Na onda do berimbau: entre o funk proibidão e a capoeira patriarcal

Recentemente a “comunidade” da capoeira foi surpreendida por um clipe musical que relacionava a capoeira ao funk. Como? Com uma letra indicando que mulheres “novinhas” iam sentar-se no pau do berimbau, metaforicamente, associado ao pênis do traficante que depois ia fuzilá-las. Essa letra e música já existiam, e, ao que parece, até então não incomodava. Então o que aconteceu, que mobilizou uma quantidade significativa de capoeiristas nas redes sociais a falar sobre ela nos últimos dias? Um clipe!

Exatamente. Um clipe! Esse clipe foi gravado em uma escola de capoeira, com mestres de capoeira e capoeiristas tocando e jogando capoeira no segundo plano enquanto o Mc canta e quatro mulheres dançam funk à frente. Esse tipo de funk é conhecido por proibidão. Proibidão porque insinua e promove atividade sexual relacionada à criminalidade e à apologia ao crime. 

No entanto, o que incomodou os defensores da capoeira não foi exatamente a exposição das mulheres no clipe e tampouco a letra, mas a ofensa para com seus símbolos, tradições e arte patrimônio nacional.  Sentiram-se ameaçados pela vil representação da “sagrada” arte, que constitui os seus modos de sustento, uma vez que muitos trabalham com crianças e mulheres e não gostariam de ver seu trabalho relacionado a tal apelo sexualizado da capoeira. Seria o grito da família patriarcal moralista?

Nesses dias viu-se e ouviu-se muitas falas relacionadas ao ocorrido na academia BerimBrasil, parceira da Loja rabodearraia.com, e ao mestre dono do lugar. Foram compartilhados nas redes, inclusive, manifestações deste e de seu genro, também mestre, dizendo que não sabiam do que tratava o clipe quando assinaram o termo de cessão de imagem. Obviamente, não convenceram! Até o próprio Mc os desmentiu em seu instagram.

Mas, o que todo esse rebuliço em torno do encontro entre o funk e a capoeira nos ensina? 

Primeiro fica evidente que o incômodo gerado se potencializou em virtude do vínculo da roda de capoeira e seus símbolos à banalização/sexualização da arte. É interessante notar que essa mobilização se deu porque o símbolo “sagrado” da capoeira foi violado e não porque houve um pacto entre praticantes de capoeira e profissionais do funk proibidão para negociá-la juntamente com a venda da imagem da mulher objetificada.

O que se pode dizer é que mais uma vez é identificada a objetificação da mulher e seu corpo dentro de espaços de Capoeira e mais uma vez isso não é importante. A defesa da velha família patriarcal, da moral e dos bons costumes prevalece, onde o cidadão “patriota”, cheio de regras moralistas, ama uma sacanagem às escondidas! Homens que, em seus espaços de capoeira e nos de seus comparsas, usam e abusam de seu poder para abusar, assediar, estuprar e humilhar mulheres e tudo isso é normalizado na onda do berimbau.

Segundo, é possível afirmar que o estímulo ao machismo estrutural opressor está no falo, simbolizado pelo instrumento berimbau. O dono, rei, sagrado da roda. É quase uma heresia explicitar aquilo que já se encontra presente na associação entre o instrumento musical e o poder masculino. Com ele não se pode mexer, bem ao gosto de dogmas religiosos. 

Novamente a relação de dominação sexista se reforça, pois, predomina nas rodas de capoeira a posse do berimbau por homens, eleitos por seus pares como exímios tocadores e cantadores, alimentando uma dada compreensão hegemônica de masculinidade, a qual é aprovada ou rejeitada socialmente dependendo do tamanho do “pau” e da performance sexual. Será que na onda do berimbau incomodou os “machões” de plantão?

Nós, mulheres, vivenciamos a todo momento essa banalização/sexualização seja nas cantigas ou nas atitudes de lideranças, por meio de insinuações, piadas, “brincadeiras”. Essa é a sentença do nosso lugar quando as desigualdades de gênero colocam os homens em vantagens e com poder de decidir sobre nossos corpos. E assim continuamos sujeitas a onda do berimbau nos espaços de capoeira. Mas, nesse pau não se senta, né, gente?

Flávia Dayana Almeida Noronha – é capoeirista, feminista, mestra em educação (Universidade Federal de Goiás)professora de capoeira angola e danças populares afro-brasileiras (Centro Livre de Artes – Prefeitura Municipal de Goiânia)co-fundadora do Movimento Angoleiras de Goiânia e integrante do Grupo Marias Felipas.

5 comentários em “

    1. Ufa! Obrigada Alexandre! É tão gratificante receber feed back que mostram que outros/as capoeiristas estão verdadeiramente em busca de uma capoeira libertadora para todos/as! Não há mudança sem autocrítica e abertura para ouvir. A capoeira só poderá ser a “arte sagrada” quando identificar seus “podres” e enfrentá-los.

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  1. Seu texto foi muito bem escrito e tudo q vc escreveu infelizmente tem muitas verdades, com ressalva no formato q colocou, generalizando as acusações. Me pareceu misandrico demais.

    Eu tambem vi varios manifestações contra este vídeo e vários deles em defesa da mulher. Mas vc preferiu, até para justificar a logica do seu texto, ver apenas aqueles q se enquadravam no seu ativismo feminismo.

    Sim, no mundo da capoeira infelizmente vamos ter machista/sexista, sistemas patriarcais e sim casos de abusadores e até estupradores, até pq as pessoas q estão na capoeira vem de uma sociedade doente e historicamente machista e patriarcal. Ou seja, todas as organizações feitas por pessoas NÃO estão isentas das ações individuais dessas pessoas, sejam elas Positivas e ou Negativas. Mas generalizar, ao meu ver, é um tom de pura de maldade…

    Sim, muitos sairam em defesa de moralizar seus trabalhos, mas oq ha de errado nisso?

    Sim, para muitos a capoeira e algo sagrado, sagrado no sentido religioso e também no sentido provedor dos seus ganhos. Mas oq ha de errado nisso?

    Sim muitos sairam em defesa da mulher, mas e oq ha de errado nisso?

    Sim o Berimbau é instrumento símbolo q carece respeito pq nele encontramos nossa conexão com a ancestralidade da nossa capoeira. Se quer tocar ele, se quer comandar o ritual, seja homem ou mulher, precisa ser bom e fazer por merecê-lo.

    O ato de gostar da sacanagem entre quatro paredes e NÃO tornar isso público,  faz da pessoa falso moralista e machista?

    Saiba q o mundo da Capoeira é constituido por gde maioria de pessoas simples, e sabe pq? A maioria do nosso povo possuem formação simples, e para piorar o quadro, a Educação Publica para o ensino basico e médio são horríveis, mal conseguem fazer com q o aluno faça uma boa interpretação de texto. Então, nossa capoeira e feita dessas pessoas, com algumas exceções como vc, com formação privilégiada para os padroes desse mundo capoeira.

    Mas, mesmo simples e sem saber oq significa ser machista, sexista, feminista, misoginia, misandria, vamos encontar uma grande maioria de pessoas de Caráter, Honestas, Eticas e Justas. Essas pessoas não merecem sua generalização e sua arrogancia acadêmica. 

    Vc perdeu a oportunidade de defender a capoeira ao mesmo tempo q defenderia seu ativismo feminista, em prol de expor de forma generalizada problemas de outras ordens q a nossa capoeira tem. Ou seja, minimizou o problema imediato em prol da sua militancia misandrica.

    Sabe oq mais me intristeceu foi saber q vc é capoeira. Sim, a capoeira tem os seus problemas e precisam ser resolvidos, mas não sera nesse formato q vamos conseguir avanços. 

    Atenciosamente
    Claudio Santos.

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  2. São muitas perguntas e afirmações no seu comentário. Vou tentar responder a algumas delas enquanto integrante das Marias Felipas, mulher capoeirista e feminista e, sim, também professora.
    Generalizações são chatas, reconheço. Mas se você olhar bem não tem como ter nenhuma discussão política sem lançar mão delas. Classe, gênero e raça são generalizações e ferramentas para compreender as relações que perpassam a sociedade e a capoeira.
    Misandria seria o que? o inverso de misoginia? A diferença é que a misoginia é um dos traços do machismo que é estrutural. Não é uma característica individual (assim como o racismo). Quando uma mulher feminista denuncia opressões exercidas por homens, não há “misandria”, mas sim análise política e ativismo. Isso se chama feminismo. Acho que você está levando a discussão para as ações e responsabilidades individuais e não é disso que se trata.
    O que haveria de errado em Mestres e capoeiristas sair em defesa da mulher objectificada no clipe? Nada! O que está errado é quando essas mesmas pessoas objetificam as mulheres todo dia na capoeira (para saber disso é só você ouvir as mulheres assediadas, abusadas e desvalorizadas). Então a crítica é para a hipocrisia dessas reações.
    Outra hipocrisia é “gostar de sacanagem entre quatro paredes” e depois dar uma de moralista. Se você não entende isso…nem sei como te explicar.
    Enfim, seu argumento final de que a capoeira é feita de gente simples que não tiveram acesso à educação enquanto a autora é uma privilegiada não cola por dois motivos. Primeiro, a capoeira tem de tudo, todas as classes hoje, mesmo que foi historicamente uma prática cultural negra e popular. Entre os abusadores, também tem de tudo, “general e também doutor” como diz a ladainha. E não há nenhuma evidência de que os homens de meio popular sejam mais machistas do que os de classe média ou alta. O machismo é estrutural, repito. E segundo, você desqualificar todo o argumento elaborado no texto simplesmente porque a autora é professora, é fraco. Pode ser até mais uma manifestação de machismo, porque todo dia capoeiristas homens, professores, estudantes, doutores e outros escrevem sua opinião e você certamente acha legal quando eles pensam o mesmo que você. Para concluir, gostaria de tentar te explicar que defender o ativismo feminista é justamente defender a capoeira. Lutar contra todas as formas de opressão, conviver com as diferenças, respeitar o outro e aprender a jogar com ele da forma que ele é, querer uma capoeira que liberta, isso é nossa luta! Não se faz só com lindas declarações sobre o sagrado e a ancestralidade, se faz também sendo coerente com esses princípios na prática. Menos carta de repúdio e mais mudanças reais!

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    1. Fico imensamente agradecido por ler palavras tão bem elaboradas, precisas e preciosas. Os olhos brilham e o sorriso se torna nítido, ainda que tímido. Existem pessoas que se apegam a fatos que apenas distorcem a necessidade de um olhar mais amplo com relação ao que realmente se faz necessário. Desde o inicio da divulgação do vídeo em questão o meu maior incomodo foi o fato da entidade /grupo não ter se retratado até o presente momento, por associar uma cultura sexista ao espaço de ancestralidade cultural. Ao passo em que buscamos tornar o espaço Capoeira um lugar de acolhimento e não esquecimento de questões de extrema importância, temas como machismo, assedio sexual e homofobia ainda são sufocados ao invés de serem debatidos e combatidos com o devido afinco.

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