Debates atuais sobre Ancestralidade e Tradição

Pessoalmente o problemático vídeo do Mestre Ferradura ecoou em mim, enquanto mulher e professora de Capoeira, em diversos pontos que atravessam a Capoeira. Sim, ele acabou ultrapassando o limite do aceitável ao tratar de um tema delicado de forma irônica e sarcástica, faltou respeito, tocou em temas sensíveis, sobretudo em meio aos tempos turbulentos que estamos vivenciando hoje.  Mas acredito ser importante refletir e conversar porque são situações que vêm acontecendo há muito tempo na Capoeira.

Por um lado, o que entendemos por ancestralidade e tradição? Porque desqualificam uns/umas a outros/outras por não praticar uma capoeira tradicional? Por outro lado, há de reconhecer que existe uma linha tênue entre tradição, doutrinação e abuso de poder. Como identificar em qual das três situações me encontro quando estou encantada com o que vivencio em uma roda de capoeira?

Em tempos de pandemia as aulas online se multiplicaram em benefício de todos e todas as capoeiristas, inclusive de pessoas que puderam iniciar seu processo de prática sob esse formato. É possível manter a ancestralidade e tradição das práticas via aulas online? Bem antes da pandemia, existiam afiliações de um grupo com o seu mestre do outro lado do mundo, com ou sem coexistência prévia, podemos nesse caso falar de tradição? Professor@s, estrangeir@s que mal falam português, e que talvez tenham tido a oportunidade de ir ao Brasil apenas uma vez, mas que desenvolvem um trabalho de respeito muito lindo com famílias engajadas com a prática, são legítimos?

Me chama a atenção os casos de pessoas que tiveram péssimas experiências com seus mestres e decidiram fundar seus próprios grupos, que funcionam muito bem em suas comunidades. E pergunto: não os podemos chamar de Capoeira? Para estas práticas no exterior existe ancestralidade e tradição?

É possível falar de ancestralidade na ausência de um mestre brasileiro? Mesmo que se respeite a cultura, a tradição e os fundamentos da roda. Sim ou não? Se a Capoeira é uma arte encarnada que somente se constitui quando vivenciada entre pessoas, então no caso de diferentes nacionalidades, culturas e crenças, como se cria o sentido do transcendental nessas práxis? Como atribuímos sentido à ancestralidade e à tradição em contextos socioculturais fora do Brasil? E de que forma isso é interpretado e/ou aceito pelos mestres e mestras no Brasil?

A capoeira em território chileno é praticada e vivenciada desde 1995, é possível negar a construção de uma capoeira chilena? Lugar onde atuamente maioria dos trabalhos de capoeira é liderada por professor@s chilen@s. Lembrando e respeitando a sua origem, é legítimo se apropriar da identidade de outra cultura para identificá-la com tuas raízes, lutas e contextos? A Capoeira no Chile não tem ancestralidade?

São muitos os questionamentos e certamente não tenho resposta, não sou ninguém na Capoeira, mas sei que dediquei metade de minha vida respeitando e admirando essa tradição. Penso que ser estrangeira, não ser afrodescendente e ser mulher não são motivos para desqualificar meu pensamento. Ainda mais quando se trata de um processo sem autocritica, e que diante das denúncias cada vez mais frequentes de abuso e violência perpetuadas por “estrelas” da capoeira, as pessoas ficam surdas, cegas ou mudas.

Falo com base em minha própria experiência e daquela de companheiras que cruzaram meu caminho. Por exemplo, um caso mais recente ocorreu dentro de um espaço que se orgulha pelo respeito à ancestralidade, onde se silenciou e recriminou a denúncia feita por uma mestra que acusava um mestre de abuso sexual, mestre este reconhecido como detentor da ancestralidade. Então a integridade física e psicológica das pessoas é vista em segundo plano quando é necessário defender o sistema patriarcal na Capoeira.


Evelyn Violeta é una chilena emigrante em Barcelona, professora de capoeira, militante feminista, professora de educação física, pesquisadora em temas [em torno da] formação do professorado e educação intercultural através da capoeira.

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