Discípulx que aprende, mestrx que dá lição…

É sabido no mundo da capoeiragem que existe uma trajetória de saberes para se tornar mestrx de capoeira. É um campo de zelo, cuidado e hierarquia. Muito se diz sobre o papel de um/a mestrx. Incorporam uma responsabilidade social de transmitir, mediar, valorizar e preservar conhecimentos construídos por africanos e afro brasileiros. São verdadeiros guardiães desse legado, a capoeira. Por elxs são ensinados modos de ser, agir e interagir dentro e fora da capoeira. Por isso representam os “passos que veem de longe”. Uma caminhada de trabalho realizado, dedicação e preservação da cultura ou da “tradição”. Que “tradição é essa, o que ela ensina? Podemos rever elementos dessa “tradição”?


Nesse universo da tradição algumas questões se tornam latentes diante de condutas e ações no transcurso do processo de ensino-aprendizagem. Até que medida as palavras dxs mestrxs são inquestionáveis? Mestrxs são intocáveis ao ponto de que assumir um erro parece fatal? Não somente pra ele, mas, esse reconhecimento torna-se uma ameaça a todxs mestrxs?


Uma primeira, dentre muitas hipóteses e constatações empíricas e comprovadas por diferentes registros, seria de que esse é o lugar de uma autoridade e, na nossa sociedade não se deve colocar em prova as “autoridades”.


Neste espaço de poder são, por alguns/as, consideradxs “deuses/as do saber ancestral”, mas, podem ser também, por meio de suas ações, soberanos/as dos corpos de suas /seus aprendizes. Aí se constrói uma hierarquia, um lugar de liderança e potência, que diz o que é certo e o que é errado as suas/seus discípulxs. Talvez seria uma confusão histórica entre sabedoria, legado e autoridade. Afinal, primeiro vem a capoeira, depois falamos sobre suas relações com a vida em sociedade?


Mestrxs se tornam responsáveis em manter viva toda uma história de luta e resistência. Por elxs acessamos experiências, conhecimentos e fundamentos que colocam a capoeira como saber ancestral. Por sua trajetória são reconhecidos/as, respeitadxs, e, até mesmo reverenciadxs e, com o tempo precisam também de cuidadxs. Cuidado esse que deveria ser em mão dupla mestrx – discípulo e discípulx – mestrx.


Discípulo que aprende, mestrx que dá lição…

Nessa longa caminhada, além de serem exemplos de sabedoria e coragem, infelizmente, também, existe omissão, violação e dor de muitas mulheres. Em que momento, poderemos dizer que práticas opressoras e violentas contra mulheres na capoeira existem, seguem uma estrutura patriarcal, machista e misógina e nos confinam ao silenciamento da violência? Quando denunciar e quando ficar caladas em nome de uma “tradição”? Quando nossxs lideranças perceberão que não se divide a “roda da capoeira” e a “roda da vida”?

Qual a lição a nos ser dada numa situação de abuso, violência e dominação na capoeira?


“Joga bonito que eu quero aprender!”

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Flávia Dayana Almeida Noronha – é capoeirista, feminista, mestra em educação (Universidade Federal de Goiás), professora de capoeira angola e danças populares afro-brasileiras (Centro Livre de Artes – Prefeitura Municipal de Goiânia), co-fundadora do Movimento Angoleiras de Goiânia e integrante do Grupo Marias Felipas.

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