Nossa História, Experiências e Estratégias de Luta.

O texto a seguir é um apanhado da história, experiências e estratégias de luta do Grupo Marias Felipas, e foi apresentado por Adriana A. Dias, membra-fundadora, na XX  REDOR no dia 05/12/2018:

unnamed

MARIAS FELIPAS: HISTÓRIA, EXPERIÊNCIAS E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO AO SEXISMO E À VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES NA CAPOEIRA

    O objetivo desta comunicação é apresentar a partir da minha própria experiência, como capoeirista, feminista e co-fundadora, o grupo de estudo e intervenção Marias Felipas. Este coletivo é formado por mulheres capoeiristas e estudiosas de diferentes gerações e estilos de capoeira. O grupo, além de ter como proposta ler, escrever, analisar e discutir sobre as relações de gênero, trajetórias e representações das mulheres na capoeira, também desenvolve estratégias de combate à violência de gênero, luta pela visibilidade e reconhecimento das mulheres na tradição e história da capoeiragem. Pretendo contar a história de fundação do grupo, seus principais objetivos, com ênfase nas nossas atuações e intervenções que visam transformar o universo da capoeira, historicamente, construído como espaço, predominantemente, masculino e machista em espaço de libertação e igualdade para todas, todos e todes. O destaque maior será dado às rodas feministas, nosso maior instrumento de luta e às nossas ações no fórum social mundial realizado em Salvador em 2018: a mesa redonda intitulada “Outra roda é possível: Caladas Nunca Mais”, a atividade “Mulheres em Jogo II” com oficinas de capoeira ministradas por mestras, contramestras e lideranças negras, seguida de uma roda de capoeira e a nossa intervenção na “Mesa dos machos”.

*

    Durante muito tempo, a capoeira foi uma prática cultural, predominantemente, masculina. Atualmente, apesar de mulheres e homens dividirem os locais de treino e rodas de capoeira, na maior parte das vezes, os espaços de poder continuam nas mãos dos homens. São eles quem comandam os grupos, controlam a roda, tocam berimbau, puxam ladainha e têm o privilégio de jogar mais tempo. A maioria das músicas são cantadas no gênero masculino e as fotografias que decoram as academias de capoeira também são de homens. Dessa forma busca-se excluir as mulheres dos lugares de poder e assim como da tradição e da história da capoeiragem. Além disso as mulheres sofrem diversos tipos de violência nas rodas, violências físicas e simbólicas. A capoeira, portanto, hoje entendida como instrumento de educação e cidadania, ainda é, contraditoriamente, um espaço de desigualdade de gênero, sexismo e violência contra as mulheres (ZONZON, 2017).
Desde os anos 1990, mulheres capoeiristas vêm se organizando em busca de reconhecimento e fortalecimento neste universo machista, inicialmente, através da realização das conhecidas “rodas de mulheres” em eventos comemorativos em homenagem ao dia internacional das mulheres. Mais recentemente estão sendo criados coletivos de mulheres e também grupos feministas de capoeira que buscam formas de enfrentar o sexismo dentro e fora da capoeira cujo principal instrumento de luta e fortalecimento são as “rodas feministas” que têm formato e propósitos bem diferentes das antigas “rodas de mulheres”. Nosso grupo de estudos e intervenção feminista, intitulado Marias Felipas, se situa nesta última modalidade.
Somos um grupo de mulheres capoeiristas, pesquisadoras, educadoras, feministas e ativistas. Encontros, lutas, dores e alegrias nas intersecções entre a pequena e a grande roda da vida resultaram na criação deste coletivo. Temos como interesse comum aprender e atuar nas diversas esferas do mundo da capoeira, preferencialmente, ao lado de outras mulheres e construir juntas meios de lutar de forma criativa contra as relações de opressão sexista presentes neste universo. O grupo, além de ter como proposta estudar e discutir sobre as relações de gênero, trajetórias e representações das mulheres na capoeira, desenvolve estratégias de combate à violência de gênero, de luta pela visibilidade e reconhecimento das mulheres na tradição e história da capoeiragem.
Até agora somos cinco, mas já temos muitas parceiras, capoeiristas, que fortalecem muito nosso movimento e com certeza seremos muito mais! Uma das características é que o grupo agrega capoeiristas de diversas gerações, variados pertencimentos (raça/cor, classe, nacionalidade, sexualidade, etc) e estilos de capoeira. Christine Zonzon, cujo sobrenome virou apelido de capoeira, pratica capoeira desde os anos 80, antropóloga, feminista, francesa e pesquisadora da capoeiragem. É autora do livro “Nas rodas da capoeira e da vida: Corpo, experiência e tradição (2017)”, fruto do seu doutorado e tem diversos artigos publicados. Atualmente Zonzon desenvolve seu pós-doutorado na UFBA sobre experiências e representações de mulheres neste universo com o objetivo de dar visibilidade e fortalecer as mulheres capoeiristas.

    As Marias Felipas também tem como integrante-fundadora, importantes lideranças na capoeira, como Maria Luíza Pimenta, conhecida como Lilu, contramestra, capoeirista dos anos 90, nascida em São Paulo. Feminista e educadora, na teoria e na prática, Lilu é co-fundadora do grupo de capoeira: Malta da Serra e fundadora do coletivo Mariá onde ministra aulas de capoeira, sobretudo, para mulheres e crianças. Prefere ser vista como estudiosa informal do potencial pedagógico da capoeira que resultou no seu livro “CAPOflora FaunaEIRA: uma arte brasileira (2018)”, recentemente publicado. É uma das raras obras sobre capoeira feito para o público infanto-juvenil com desenhos criados por crianças. Deseja realizar seu mestrado pensando a “pedagoginga”, enquanto uma metodologia própria da capoeira.
Outra integrante do coletivo é a capoeirista e historiadora Adriana Albert Dias, conhecida como Pimentinha nas rodas de mandinga. Ela começou capoeira apenas em meados de 1990 porque na infância quando seu pai a levou a um grupo de capoeira regional no Rio de Janeiro, só haviam homens. Precisou esperar alguns anos para encontrar suas pares na vadiagem. Adriana é fluminense (RJ), militante feminista, que pesquisa sobre a história da capoeira e possui diversos artigos textos publicados sobre o assunto. Em 2006, publicou o livro “Mandinga, Manha e Malícia: uma história sobre os capoeiras na Capital da Bahia (19101925)”. Hoje faz seu doutorado sobre capoeira e masculinidades, em busca das raízes do sexismo neste universo. Juntamente com outras companheiras, fundou outro coletivo feminista de capoeiristas chamado Pimentas de Angola.

    Joana Pointis Marçal, capoeirista carioca, feminista, também é uma das pesquisadoras da capoeiragem. Joana é formada em Relações Internacionais e realizou o seu mestrado no Centro de Estudos étnicos africanos que trata sobre capoeira como Patrimônio Cultural. O título da sua dissertação é “Capoeira e Patrimônio Cultural Imaterial: entre a identidade nacional e a identidade negra (2018)”. Um dos seus objetivos atuais é fazer seu doutorado pensando a intersecção entre patrimônio e gênero. Atualmente reside em Portugal. Apesar da distância geográfica, ela se envolve nas ações e discussões das Marias Felipas. Vanessa Coelho, nossa mascote, entrou para a capoeira recentemente, mas logo percebeu o universo machista e se envolveu com o movimento feminista. Formada em antropologia, participou da pesquisa de pós doutorado de Christine Zonzon sobre mulheres na capoeira e, assim como as demais é fundadora do grupo de estudos e intervenção feminista Marias Felipas.
Nossa força ancestral vêm de muitas mulheres, reais e imaginárias, que fizeram parte tanto da história da capoeiragem quanto das lutas feministas em todos os cantos do mundo. Mas a escolha do nome do grupo não foi por acaso. Maria Felipa de Oliveira, de acordo com a tradição oral, é primeira mulher capoeira que temos notícia na Bahia, negra e marisqueira, nascida na Ilha de Itaparica. O que contam é que seu nome se tornou conhecido por ter enfrentado junto com outras mulheres as tropas portuguesas sob o comando de Madeira de Mello nas lutas pela Independência na Bahia em 1823. No episódio, Maria Felipa junto com suas parceiras utilizaram da maior arma da capoeira que é a arte da astúcia, da falsidade, da mandinga. Ela e suas
parceiras fingiram querer seduzir os homens da tropa portuguesa e quando eles menos esperavam levaram delas uma surra de cansanção. Para quem não conhece, essa planta causa uma verdadeira queimação no corpo (ABREU, 2005; FARIAS, 2010). A escolha do seu nome para denominar nosso grupo feminista pode ser entendida enquanto uma estratégia de inserir a referência de uma mulher na nossa história. A tradição hierárquica, masculina e sexista da capoeira “não oferece representações que contemplem as mulheres, portanto nos conectamos com a figura de Maria Felipa como nossa ancestral na capoeira representando assim a tradição das mulheres neste universo”. Como afirma Christine Zonzon em uma das postagens do nosso blog “Tradição e sexismo andam juntos, sim!”. Isso é visível nas cantigas que nos desvalorizam e estimulam a violência contra as mulheres, nas fotografias de homens penduradas nas paredes das academias de capoeira, nas narrativas de outrora, quase exclusivamente, sobre “machos” e nas árvores genealógicas da capoeira que não reservam nem um nome sequer de mulher. A ausência das mulheres no berimbau muitas vezes são justificadas por esta tradição “mantida, resgatada e ditada pelos mestres de capoeira”.

    Tal tradição reforça e legitima relações de gênero hierárquicas neste universo (Blog Marias Felipas, 2017).

“Como Maria Felipa, existem muitas outras mulheres capoeiristas esquecidas nas dobras da história e até hoje subalternizadas, mestras e ancestrais que precisam ser lembradas e valorizadas. São nossas verdadeiras referências e seus exemplos fortalecerão a atual luta das mulheres, dentro e fora da capoeira, para que as capoeiristas de hoje possam sentir-se firmes e representadas dentro da história de sua arte” (Blog Marias Felipas, 2017). 

    Essa também é uma de nossas bandeiras de luta. Por uma nova tradição feminista, no sentido de que preze pela igualdade de gênero e valorize nomes de mulheres na história da capoeira.

    A fundação deste grupo de estudos e intervenção se deu num momento muito especial. Foi no dia que nos reunirmos para assistir a defesa da dissertação de mestrado de Daniela Sacramento de Jesus, primeiro trabalho que trata especificamente sobre capoeira e gênero na Bahia, que ocorreu no final de 2017 no Centro de Estudos étnicos africanos (CEAO/UFBA): Quando as mulheres se tornam capoeiristas: um estudo sobre a trajetória e o protagonismo de mulheres na capoeira. Este trabalho deu visibilidade a mulheres que já atuavam intensamente na capoeira sem serem, devidamente, reconhecidas pela comunidade. Após sua defesa, realizamos uma roda de capoeira com a presença de mulheres capoeiristas ilustres de diversas nacionalidades, classes e pertencimentos, algumas também professoras, pesquisadoras da capoeira e ativistas. Da roda para o boteco, como na capoeiragem de outrora, surgiu a ideia de criar um grupo onde pudéssemos compartilhar nossas inquietações de pesquisa, aflições vividas enquanto mulheres no mundo masculino e sexista da capoeira e a luta feminista. Talvez inspiradas pelo trabalho de Daniela acreditamos estarmos construindo um novo capítulo da história da capoeira: Quando capoeiristas se tornam feministas.

    Como fazemos questão de deixar claro em nosso blog:

“Este grupo tem o propósito de fortalecimento mútuo, ele não é somente um grupo de estudos do tipo acadêmico, tampouco é um coletivo de ativismo político pontual. Estamos interessadas em explorar nossas feridas, conversar sobre o que nos dói e ajudarmos umas às outras a encontrar nossas forças, seja dando voz e coro às nossas inquietações intelectuais e de educadoras ou seja emprestando nossa força física e emocional para realizar ações e intervenções contra o machismo e a opressão de gênero da sociedade patriarcal em geral” (Blog Marias Felipas, 2017)

   As “Rodas Feministas” são nosso principal instrumento de intervenção política. Lideradas por mulheres de histórias e atuações diversas na capoeira, algumas independentes (ou seja são capoeiristas, mas não pertencem a nenhum grupo de capoeira tradicional), outras vindas de diferentes grupos de capoeira. Em nossas rodas misturam-se as diversos estilos de capoeira. Consideramos fundamental a realização de Rodas Feministas até o momento em que a capoeira deixe de ser um local de reprodução de desigualdades de gênero e violências contra as mulheres. Como já foi dito, nas “rodas comuns”, tradicionalmente machistas, na grande maioria das vezes, os espaços de poder ainda são dominados pelos os homens. Em nossas rodas, aberta a todas/os/es, somos nós, mulheres, que regemos a bateria e damos o tom dos jogos. A generosidade e a troca de aprendizagens são marcas garantidas nessas ocasiões de muita vadiação e mandinga. Trocamos experiências e aprendizagens, todo jogo tem seu lugar, desde que realizado sem violência – “jogos pegados”, outros mais leves, em cima e embaixo, com rasteiras, suingues e cabeçadas – aqui todas podem cantar e tocar (não apenas o reco-reco e o agogô, instrumentos em geral reservados às mulheres). Dessa forma nós nos divertimos e nos fortalecemos muita mandinga, manha e malícia mostrando que é possível fazer capoeira sem medo (de sofrer humilhações ou agressões físicas).
Nossas Rodas Feministas (e não femininas, é importante demarcar) diferente das famosas “rodas de mulheres” – que começaram a ser organizadas no exterior e têm se multiplicado e se expandiram pelo Brasil e pelo mundo nos últimos anos -, nossas rodas são organizadas de maneira livre, independente e apenas por mulheres, sem a permissão ou o envolvimento de nenhum mestre. Ao contrário, as primeiras “rodas de mulheres” em geral são organizadas por grupos de capoeira tradicionais dentro de eventos oficiais em homenagem ao dia internacional das mulheres com aval dos mestres. Nessas ocasiões é como se houvesse uma pequena pausa com a autorização dos mestres na tradição machista da capoeira – em que homens comandam a roda – para que as mulheres e apenas elas possam naquele momento reger a roda, mas por pouco tempo e em dias de comemorativos. Ao mesmo tempo que essas rodas podem ser entendidas como um primeiro passo das mulheres se organizarem coletivamente, não me parecem possuir um viés de romper com a tradição e questionar de fato a hierarquia machista e desigual da capoeira.
As rodas feministas organizadas pelas Marias Felipas tem por princípio a ruptura com esta tradição hierárquica e sexista da capoeira e a criação de espaços de libertação, fortalecimento e solidariedade entre as mulheres. Um dos exemplos desta ruptura, além da regência da bateria e o comando da roda pelas mulheres, são as músicas de teor feminista e de valorização das mulheres. Nas nossas rodas, todas podem ocupar todos os lugares, cantar e tocar berimbau, aqui não tem título nem corda que faça ninguém melhor que ninguém, quanto mais com o “direito” de desrespeitar, humilhar ou agredir. Buscamos reconhecer a qualidade de cada uma dentro de nossas experiências e aprendemos a nos fortalecer, dando força umas às outras. É uma solidariedade única que reverbera para além do espaço da roda. Por exemplo quando percebemos como esta prática das rodas feministas tem um efeito positivo na autoestima das mulheres, inclusive de mestras e capoeiristas de longas datas (não feministas), pouco visibilizadas e praticamente sem nenhum reconhecimento da comunidade de capoeiristas. Nota-se a elevação da autoestima não só pela mudança de comportamento dessas mulheres, muito mais confiantes e empoderadas, nas rodas, mas se percebendo como importante no fortalecimento de outras companheiras.
A possibilidade de todas poderem cantar e tocar não compromete a notável qualidade musical das nossas rodas e também de nossos jogos. Como diz companheira Lilu, parafraseando a sambista Jovelina Pérola Negra: “Deixa comigo, eu seguro essa roda e não deixo cair, sem vacilar, sem me exibir, só vim mostrar o que aprendi”. Também muito prezamos e reconhecemos os  saberes e as experiências das nossas mais velhas, mas este reconhecimento não se dá no impedimento ou na opressão das mais novas. Para nós isso não é maestria, mas sim covardia. Este é o nosso lema, capoeirar para libertar e não para oprimir.
Nossas experiências na capoeira e no enfrentamento ao sexismo neste universo vêm de longas datas, mas a criação deste grupo de estudos e intervenção é recente e, apesar de termos pouco mais um ano de existência, já tivemos a oportunidade de realizar intervenções de grande valor a começar pelo nosso envolvimento e participação em três atividades dentro do Fórum Social Mundial de 2018 que ocorreram em Salvador.
O Fórum Social Mundial (FSM) é um evento de caráter mundial organizado por diversas entidades e movimentos sociais que começou a ser realizado em Porto Alegre em 2001 e já teve sede em diferentes cidades no Brasil e no exterior. Para nós, as Marias Felipas, foi uma honra e um grande prazer poder fazer parte da edição do FSM sediada na capital da Bahia do ano corrente que trouxe como lema: “Resistir é criar, resistir é transformar”, nada mais próximo do que tentamos fazer com o mundo da capoeiragem, ainda tão opressor às mulheres. Alguns princípios do Fórum, a saber a descentralização – o que significa a não hierarquização das pessoas e/ou instituições envolvidas – e o respeito à diversidade estão totalmente de acordo com nossa proposta e forma de atuação enquanto coletivo feminista.
Uma das atividades realizadas foi a segunda edição do “Mulheres em Jogo na Capoeira”. A primeira edição ocorreu em 2017 como parte do projeto de pesquisa (UFBA) desenvolvido por uma de nós – Christine Zonzon – que “possibilitou o encontro e a colaboração de diversos coletivos de mulheres de Salvador” (BLOG Marias Felipas). Desta vez foram reunidos coletivos de mulheres capoeiristas, pesquisadoras e militantes em torno do tema da violência contra as mulheres com oficinas abertas de capoeira angola e regional, ministradas por quatro mulheres capoeiristas convidadas: mestra Ritinha de João Pequeno, mestra Preguiça da Escola Filhos de Bimba, Nildes Sena, capoeirista e educadora, e contramestra Brisa dos Angoleiros do Mar. É importante destacar que estas mulheres já possuem uma longa trajetória no universo da capoeira, mas ainda estão longe de serem reconhecidas pela comunidade de capoeiristas como merecem.
As oficinas, que foram ministradas uma na sequência da outra, possibilitou que capoeiristas e não capoeiristas, brasileirxs e estrangeirxs, experimentassem aprendizados de diferentes tradições de capoeira e reconhecessem os saberes dessas mulheres. Após as oficinas, foi realizada nossa roda feminista aberta a todxs e liderada, sempre, por mulheres. No final tivemos uma roda de conversa com as mulheres, convidadas para dar as oficinas, em torno da temática – “Em jogo: Experiências e Estratégias de luta contra o sexismo na Capoeira”. Em geral, temos essa preocupação de realizar atividades práticas, que fortaleçam o lugar dessas mulheres capoeiristas e valorizem seus conhecimentos. Buscamos também com essas ações contribuir na formação na luta feminista dessas mulheres, tendo como ponto de partida nossas próprias vivências múltiplas, mas que têm em comum histórias de violência e opressão para que possamos construir juntas uma rede que nos possibilite enfrentar o machismo dentro e fora da capoeira.
No FSM, além desta atividade, fomos proponentes e palestrantes de uma mesa redonda intitulada: “Outra roda é possível: Caladas Nunca Mais!”. Ao pensar sobre a importância desta mesa, estávamos motivadas pelo movimento ativista digital feminista de denúncia de violências e assédios contra mulheres em diferentes partes do mundo: Meu amigo secreto (Brasil), Me too (EUA) e Balance ton porc (França). Sabemos que o silêncio das vítimas e seus pares corroboram e legitimam práticas de violência seja na capoeira, no cinema, em casa ou em qualquer espaço, público ou privado. Para nós, a denúncia dos agressores nas redes sociais, à imagem das campanhas evocadas, representa uma das melhores armas contra o sexismo.
Com estas questões na cabeça (e na alma), reunimos nesta mesa mulheres de diferentes áreas, de dentro e de fora da capoeira, com abordagens diversas (sociológica, histórica, antropológica, da saúde e do ativismo digital) para refletir sobre “as diferentes dimensões e estratégias de luta contra o sexismo e violência contra as mulheres”. Nossa proposta foi partir das experiências de luta das mulheres no mundo da capoeira, “um universo complexo onde se encontram tensionados o ethos da resistência de luta contra a opressão racial e os legados sexista de uma prática historicamente associada a valores masculinos (valentia, força e virilidade)” para refletir sobre outras estratégias de enfrentamento às tantas violências que sofremos no nosso cotidiano como mulheres (Blog Marias Felipas, 2017).
Como queríamos discutir sobre violência contra as mulheres legitimada pela tradição machista da capoeira, convidamos Maria Paula Adinolfi que retomou numa perspectiva sociológica o conceito de tradição. Adriana Albert reconstituiu, através de alguns casos, a história das violências de gênero na capoeira, enquanto Christine Zonzon fez uma abordagem antropológica da violência sexual e sexista sofrida pelas mulheres. Para enriquecer e expandir as discussões para além no universo da capoeira, Verena Souto, psicóloga, fez um apanhado sobre a violência de gênero no Brasil e tratou do silêncio das vítimas de violência como um fator que gera uma série de doenças psicológicas nas mulheres e Isabela Silveira contou, de maneira emocionante, sobre a criação do grupo virtual de mulheres “eu aceito…eu ofereço” em que as participantes oferecem diversos tipos de apoio umas às outras.
O momento ápice desta mesa foi a participação do público formado principalmente por mulheres que trouxeram depoimentos, experiências, análise e dados que ampliaram e enriqueceram as discussões, mostrando, como afirma Zonzon numa dos textos do nosso blog, que o pessoal é político e que a perspectiva feminista entrelaça mente, corpo, razão e emoção. Ao partilhar nossas experiências, cada uma pôde se ver nas outras e sentir que juntas, os nossos sentimentos de medo e de dúvida se transformam em uma percepção afiada das relações de violência e opressão que perpassam nossas histórias (BLOG Marias Felipas, 2017).
No final do debate, questionamos um mestre presente a respeito de uma mesa que aconteceria no outro dia dentro do FSM que tinha a proposta de discutir sobre capoeira e ancestralidade sem a presença de nenhuma mulher na mesa. A mesa, batizada por nós de “mesa dos machos”, seria composta de oito homens, todos mestres de capoeira, mas depois da nossa crítica e denúncia de que aquilo representava mais uma vez a exclusão das mulheres da história e da tradição da capoeira, uma de nós acabou compondo a mesa: Adriana Albert. Nossa participação foi fundamental para denunciar o sexismo e a desigualdade de gênero que perpassam a história das mulheres na capoeiragem, o aprendizado da capoeira e as rodas, mesmo na contemporaneidade e que são legitimados por uma tradição machista ainda dominante. Aproveitamos para exigir a presença de Marias Felipas, Marias Doze Homens, Franciscas, Salomés e tantas outras mestras vivas na árvore genealógica da capoeira e reivindicar uma ancestralidade feminista neste universo da mandinga que também nos pertence! As mulheres que estavam assistindo esta mesa mudaram totalmente o tema principal, trazendo depoimentos e experiências de dores e lutas na capoeira, entretanto os mestres presentes, praticamente, não teceram comentários relevantes a respeito. Esta foi mais um momento que mostrou a força das mulheres quando juntas e em luta.
Nosso grupo de estudos e intervenção têm um blog com textos, vídeos e músicas sobre temáticas relacionadas à violência de gênero e ao sexismo na capoeira e estratégias de luta feminista, nele também divulgamos nossas ações e denunciamos violências contra as mulheres na capoeiragem. Rapidamente atingimos um número grande de seguidoras na nossa página do Facebook que usamos para divulgar o blog. Também já temos nossa roda feminista mensal!
Foram muitas as conquistas até aqui, posso dizer que para mim esta experiência de conseguir reunir mulheres capoeiristas diversas em torno do estudo da capoeira e relações de gênero, construir junto delas estratégias de luta contra o sexismo e conseguir transformar este mundo da capoeira, mesmo que no nosso pequeno universo, em um espaço de união e liberdade para todas nós têm uma dimensão única e especial demais na minha vida.
Sou capoeirista a mais de 20 anos e há 18 anos pesquiso sobre o tema, já vivi e presenciei muitas práticas de violência na capoeira, física e simbólica, contra mulheres e meninas, adolescentes. Quantas vezes me negaram o berimbau? Quantas cantigas tive que ouvir e cantar que desvalorizavam as mulheres? Perdi a conta. Já fui ameaçada por mestre de renome por denunciar a violência contra mulheres capoeiristas e questionar a desigualdade de gênero na pequena roda. E não foram poucas as mulheres que presenciei sendo agredidas e humilhadas em rodas de capoeira com a conivência dxs presentes.
Basta! Nosso lema é caladas nunca mais! Não é mais possível aceitar em silêncio todas essas práticas que nos oprimem e tentam nos excluir do universo de alegria e força que a capoeira representa. “Capoeira é a minha vida, me mudou a direção”, como diz uma cantiga, foi dentro dela e por causa dela que me fiz historiadora, feminista ativista, a mulher que eu sou e gosto de ser. A força das mulheres está em mim e a minha nelas, as Marias Felipas, me propiciaram estar conectadas com tantas companheiras…

    Elas me transformam e eu sou por elas transformadas e nesse caminho sabemos que não estamos mais sós e que muitas outras rodas são possíveis!

    Quero terminar este texto com a fala de uma companheira chamada Marisa Ruiz, antropóloga, feminista mexicana, não capoeirista, que assistiu uma de nossas rodas feministas num Simpósio Internacional Feminista que ocorreu, recentemente, no CEAO/UFBA. Para ela, nós “transformamos espaços tradicionalmente masculinos e machistas em espaços de emancipação e libertação”. Sem dúvida a semente já foi plantada e só depende de nós, mulheres, para florescer em luta por igualdade!

Referências
ABREU, F. J. Capoeiras, Bahia, século XIX: imaginário e documentação. Salvador: Instituto Jair Moura, 2005.
BLOG Marias Felipas. < https://mariasfelipas.wordpress.com/&gt; Acesso em 15 de novembro de 2018.
DIAS, A. A. Mandinga, Manha e Malícia: uma história sobre os capoeiras na capital da Bahia (19101925). Salvador: EDUFBA, 2006. FARIAS, E. K. V. Maria Felipa: heroína da Independência da Bahia, Ed. Quarteto, Salvador, 2010.
JESUS, D. S. de. Quando as mulheres se tornam capoeiristas: um estudo sobre a trajetória e o protagonismo de mulheres na capoeira. Dissertação de Mestrado, Programa multidisciplinar de pós graduação, CEAO/UFBA, 2017.
MARÇAL, J. P. Capoeira e Patrimônio Cultural Imaterial: entre a identidade nacional e a identidade negra. Dissertação de Mestrado, Programa
multidisciplinar de pós graduação, CEAO/UFBA, 2018.
PIMENTA, L. L. CAPOflora FaunaEIRA: uma arte brasileira. Ed. 43, Belo Horizonte, 2018
ZONZON, C. N. Nas rodas da capoeira e da vida: Corpo, experiência e tradição. Salvador: EDUFBA, 2017.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s